Mais um ano, ficando experiente, não dá para crescer na horizontal, então aumenta na verticalidade, prédios tocando o céu, cada vez mais alto. A cidade dos concretos, ilhas, mangues e águas.

Da janela do quarto, ouço vozes de crianças no prédio vizinho, certamente uma comemoração de aniversário, deve ter começado no fim de tarde e continua depois do sol ter ido descansar. Esses sons compõe a coleção: a metrópole e suas coisas singelas, junto ao barulho do vento nas mangueiras e o cantar dos pássaros urbanos. Da mesma janela, também vejo o lixo depositado na beira do rio, a mata ciliar, as velhas gavetas, o chorume, os móveis jogados fora, transportados pelas carroças puxadas por cavalos. Tanta vontade já tive de conversar com os homens que vem deixar os restos fabricados pelos humanos.

Hoje, vi que instalaram uma estação de bicicletas numa transversal à minha rua e acende em mim o desejo de movimento e de andar livremente pela cidade, alimentado sempre que penso na minha bicicleta e vejo as ciclofaixas, desrespeitadas pelos carros.

Diariamente, tenho como companhia o mar de carros, parecendo aquelas carreatas que era acostumada a ver no sertão, de quatro em quatro anos, em épocas de campanha política. Quando estou a pé, me desloco mais rápido, apesar de estar vigilante, nos últimos dias houve assaltos na minha rua. Dentro dos automóveis e ônibus não há o que fazer, respirar e esperar fluir o congestionamento, a impotência habita o peito.

As capivaras, os velhos prédios do Antigo, a mata atlântica, o mar da Boa Viagem, as aves que sobrevoam o Capibaribe e os grilos, companhia de todas as noites permanecem em mais um aniversário. Já é domingo e escuto o barulho do motor de barco nas águas do rio. Parabéns, Recife pelos 481 anos! Ainda sonho com o dia em que possa colocar uma cadeira nas tuas calçadas e sentir as horas passarem.

Eu, um dia desses, sentindo a brisa do Capibaribe.