Abertura é o oposto de fechamento, visão ampliada da vida, do ser humano e de si, é abrir cada vez mais as janelas de onde se vê o mundo, faz rachaduras, rasgos, cortes e amplia espaços, faz entrar luz onde invade.

Era apenas uma consulta para conseguir atestado dermatológico, mas se transformou numa agradável conversa com temas os mais variados, num dos motes eis que ouço, passe pouco produto e com suavidade, pele é para ser bem tratada, com pequenas quantidades de creme e a toque de seda. Eu vi que ele falava por metáforas e como eu gosto disso, elas carregam poesia, uma pedra não é só uma pedra, pode ser tanta coisa.

Também percebi que gosta de conversa, o ato de interagir, deixar fluírem os pensamentos, dar asas à expressividade, algo que está se tornando raro em nosso mundo. Falo da conversa olho no olho, sem distrações, celulares e ruídos. Um bom papo, desses que você se sente relaxada ao final e podem surgir assuntos os mais diversos, do preço do combustível que hoje está caríssimo ao sonho de uma casa no campo. Uma taça de vinho ou um bom disco na vitrola podem ser excelente companhia para as trocas, o clima fica mais aconchegante.

Ele era um profissional com abertura, para o diálogo, para a arte, entre um tema e outro saiu: ouça Beatles e sua pele ficará melhor, comparando a suavidade da música ao modo de tratarmos a cútis. Encantador, achei. Admiro as pessoas que conduzem seu ofício e forma de estar no mundo com palavras, metáforas e arte. Afinal de contas, um trabalho não é só um trabalho, é imprimir sua marca no que faz. Da minha parte, continuarei ouvindo Let it be.